quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Tiago e Thiaguinho - Borboletas (Butterflies)

Perguntassem-me qual foi o sonho que não realizei depois de dois anos e meio no Velho Mundo, não hesitaria em responder: tocar no meio da rua por uns trocados ou umas risadas.

Não o fiz na rua, para transeuntes casuais, mas o fiz no mar - para uma plateia que beirava as mil pessoas.

Com vocês...



A história completa, prometo, vem num próximo post. Se é que o vídeo já não diz tudo...

domingo, 21 de novembro de 2010

Gênio inenarrável

O texto é dele. Sem quase nada conseguir dizer agora, faço pretensiosamente das palavras dele pra mim as minhas pra ele:

http://madrugaemclaro.blogspot.com/2010/11/genio-inenarravel.html

Valeu, Ernani.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Mudança

A Irlanda pela Inglaterra. A Camden Street por Camden Town. Os laticínios pelo jornalismo, o supermercado pela redação; o ganha-pão pela paixão. A caminhada pelo metrô, o abraço quente do meu amor pelo pedaço de chão na casa do bom amigo.

O dinheiro pela experiência, os amigos de todo dia pela impessoalidade cosmopolita. Os clientes pelas fontes. O inglês acaipirado pelo sotaque britânico. O Rio Liffey pelo Tâmisa. A cerveja preta pela cerveja vermelha. O armário pelo mochilão, a comida caseira pelo Burger King.

A rotina velha por uma nova rotina. O tempo todo, que já rastejava devagar, por um mês que pareceu um segundo. Os pensamentos literatofônicos pela reportagem. O demasiado medíocre pelo Fantástico. A passagem que mudou minha vida pela volta ao que será dela, da minha vida, para sempre. O passado inesquecível pelo futuro em construção.

Mudei e amanhã o faço de novo, simplesmente porque a mudança é o remédio certo pra não ficar mudo.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

O Não-Relato De Um Certo Oriente

Escrevo do alto de mais uma janela cinza no coração londrino - quando deveria este vento frio estar me soprando ao Oriente Médio. A Beiture; ao Líbano, terra do avô que não conheci. Terra de glórias, belezas, tragédias, cicatrizes. Lugar de guerra e de festa sem igual, um lugar desconhecido por onde habitou meu desejo desde a infância. Da frustração de vovó e dos planos vindouros de minha mãe.

O que é o Líbano eu saberia ainda hoje, a meia hora do dia acabar - por pelo menos até o próximo par de semanas. A mala onde guardo os sonhos cumpridos, no entanto, voltará mais leve ao Brasil. A memória, mais vaga. As histórias, escritas somente da esquerda à direita e de cima a baixo. O cedro, um emaranhado de galhos magros e nus.

Um pedaço do Ocidente na aresta ortodoxa oriental. As montanhas, os vilarejos. Kesrouan, Jounieh, Biblos. Dois Irmãos. A cidade reconstruída. A burca. O patriarca. O Hezbollah. Cristãos, muçulmanos. O gosto do narguilé. O tio Jamel. Os resquícios de bomba que ainda mutilam transeuntes. A culinária. O Exército no meio da rua. A tradições, a dança, o canto por tantas noites. Os personagens de Milton Hatoum. O relato dilúcido e saboroso de meu irmão. Aqueles que foram e não voltaram. Os que voltaram. Os primos da juventude, do litoral agora distante. O sobrenome que não tenho na certidão, mas carrego no sangue.

O imaginário errante e lacônico rascunha um país fragmentado num quebra-cabeça - mas o vento frio da janela inglesa sopra suas mil peças para muito longe daqui. Minhas interrogações caladas explodem o Líbano mais uma vez.

A despeito de minha poltrona vazia, o BD907 com destino a Beirute levou consigo todas as minhas perguntas. Sabe o destino, contudo, o vôo que me trará as respostas.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Saltimbanco

Fosse um desenho e lá estaria o Circo do Sol a ser condecorado com a estatueta dourada pelos efeitos especiais. Saltimbanco é assim: um show de cores, cantos, corpos, danças, risos e palmas. Um desenho de carne e osso, caras e bocas, timbres e tintas. De idioma próprio, único e universal. De gente pensante, sem macaquinhos amestrados à base de choque. De duas horas que parecem dois minutos.

Um espetáculo que desafia ora a seriedade do dia-a-dia, ora as leis da física – tanto faz. Entre um ato e outro, todo mundo da trupe é um pouco palhaço, um pouco mágico, equilibrista, ator, bailarino. No além-picadeiro, por outro lado, todo mundo é muito e só criança. Dá pra esquecer a tristeza e mergulhar num balde gigante de pipoca; acreditar que as coisas são mais bonitas, que a ingenuidade ainda tem vez; virar os olhos no movimento preciso e veloz dos homenzinhos pintados; e desvendar que suas máscaras não têm disfarce algum. Saltimbanco é assim: espontâneo, leve, gostoso. Escapismo transparente.

Fosse um desenho para todos, ricos e pobres, daria até pra imaginar que a vida é uma bela cópia da arte.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Acabou em pizza

O título é clichê e preguiçoso, mas não resta opção. Foi bem isso: a França chegou vergonhosamente à Copa do Mundo, depois de todo mundo sabe o quê (sobretudo aqui em Dublin), e conseguiu sair de maneira ainda pior. O retrospecto indica três jogos, duas derrotas, um empate, um gol marcado e quatro gols sofridos, só um marcado e, portanto, 1.400 pizzas Hut distribuídas. Para quem não sabe, o franchising aqui na Irlanda promoveu a entrega gratuita de 350 discos recheados a cada gol tomado pela seleção de Henry.

Deixamos de acreditar na promoção quando, na partida contra o Uruguai, o site ficou todo o tempo fora do ar. Nossa amiga Ju (ou, para os íntimos leitores do Madruga em Claro, a lendária Japinha), porém, não desistiu. Fim da história: enquanto o amigo Ernani comemorava, na última terça, os gols da África do Sul mais pela vingança que pela barriga vazia, sua mulher correu para a internet fazer os pedidos. Pra ele, pra ela, pra mim, pra Dani, pra Cleidoca, pra Charlene, pra Mari e pra quem mais estivesse a fim de celebrar o vexame azul e branco.

Os pedacinhos eram decerto menores que as dores que a França já me causou, mas o sabor de cada mordida equivaleu aos nossos cinco títulos mundiais. E ficou a lição: o Primeiro Mundo é tão avançado que aqui, quando as coisas acabam em pizza, é para o bem geral da nação.


quarta-feira, 9 de junho de 2010

Esperança

Hoje fui pela segunda vez ao cinema desde que cheguei à Irlanda. Pois é. Na primeira, meados do último fevereiro, assisti Avatar. Filme bacana, de fato impressionante nalguns aspectos. Deixei a sala mais empolgado, no entanto, com a retomada de um hábito que gostaria de cultivar – por mais que os números provem o contrário. Jurei que dali em diante voltaria semanalmente. Menti.

Voltei hoje. Se todas as mega-produções hollywoodianas dissessem pelo menos um pouco do que me disse este, pagaria agora o bilhete ilimitado válido por um ano inteiro. Não se trata, nalguma instância, de qualquer mega-produção. Não há efeitos especiais. As revistas especializadas não resenharam ou classificaram por estrelinhas (mas dois jornais irlandeses chamaram atenção para as sessões desta noite). Não havia pipoca nem bala Chita a granel. Não havia, na premiere, tapete vermelho para os atores e convidados. O lucro na bilheteria não bateria o recorde do primeiro filme que vi na Irlanda. Aliás, sequer havia lucro na bilheteria. Não havia glamour.

Mas havia o mais bonito: simplicidade. Vida real. Amigos. Interessados. Simpatizantes. Brasileiros, irlandeses, poloneses, húngaros, etc. E o que, afinal, havia no filme propriamente dito? Eu gastaria linhas escrevendo a respeito, mas ele fala por si só. Em comum com alguns blockbusters, o fato de ter feito sucesso primeiro na internet. Com vocês, Hope – The Real Story of Aline Barros (Esperança – A História Real de Aline Barros):




O filme retrata com fidelidade canina ao menos três pessoas que tenho a honra de conhecer e com quem já aprendi muito mais do que e escola de inglês me ensinou: a própria Aline, sua mãe, D. Sylvia, e o sujeito que está detrás das câmeras. Ernani Lemos, dizem os créditos no final do filme. Tenho cá para mim o hábito de chamá-lo apenas de Ernani. Parceiro. Irmão. Gênio. Doutor. Um rapaz que tem o coração e o talento maiores que o mundo. Que não precisa, portanto, de resenha, fama ou dinheiro para ser reconhecido como uma estrela.

Valeu, meu amigo.