Chegou do Brasil, no último 22 de outubro, o e-mail talvez mais importante que já recebi na vida:
CRESPO
IMPERDÍVEL
PAUL MCCARTNEY EM DUBLIN!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
20th December - Dublin, The O2
Simples assim. Quem (não) assina é Raphael Sanchez – e apenas um amigo dele sabe o que é ser “sanchesco”. Digo, não o vejo há mais de um ano e muito pouco nos falamos mesmo que por internet depois de minha partida. Durante as férias no Brasil, foi dos poucos companheiros que não encontrei. E ser “sanchesco”, por exemplo, é isso: ressurgir das cinzas, ignorar o sem-número de histórias e novidades que temos a dividir e sequer perguntar “Como está? Tudo bem? Quanto tempo!”. Ser “sanchesco” é ser conciso, discretamente enfático (poucas palavras, muitas exclamações e letras garrafais), objetivo e oportuno; é não perder mais do que poucos segundos para enviar uma mensagem eletrônica que, sabia ele, talvez fosse das mais importantes de minha vida – e sabia ele, sobretudo, que obviamente eu estaria
muito bem depois da notícia dada.
Li o e-mail duas, três, quatro vezes. Cinco. Não acreditei. Ser “sanchesco” também é ser sarcástico e, convenhamos, Paul Mccartney em Dublin poderia ser fruto dalguma de suas construtivas piadas. O site oficial do artista não contrariava, porém, a mensagem do amigo. Seria “sanchesco” ter a perspicácia de invadir a página de meu maior ídolo vivo e forjar um concerto dele em minha cidade? Optei pela crença de que não seria “sanchesco” brincar com algo tão sério.
Dada a certeza de que o amigo tinha razão, rememorei conversa com a amiga Isabela no dia exato do meu aniversário, último 24 de junho: entre um
mojito e outro, trocávamos figurinhas sobre o show de Elton John quando concluí que apenas
um concerto poderia ser ainda maior para mim: o de Paul Mccartney. Isabela, por sua vez (Bartinha, para os próximos), concordou com a grandeza de Sir Elton e escolheu Michael Jackson como o único que poderia desbancá-lo do topo. Quando recebi a notícia da morte de Michael
no dia seguinte, ainda no trabalho, tive certeza de que se tratava de uma piada com a amiga. Não era.
Distante do azar de Bartinha e contemplado com a mensagem de Sanchez, não hesitei em escrever ao amigo Esteban – argentino que divide apartamento e a paixão pelos Beatles. Ao receber, durante o trabalho, minha mensagem pedindo para que se preparasse para a melhor notícia de todos os tempos, Esteban esperou agoniado pelo intervalo para que pudesse me ligar e confirmar:
- O Radiohead está vindo a Dublin?!
- Esteban, meu amigo, preste atenção: é a MELHOR notícia de todos os tempos.
- Não, cara, não!
- Sim!
- Não... não...
- Eu juro, Esteban.
- P... P... Paul?
À confirmação daquele que é seu sonho também, Esteban dividiu comigo agora as lágrimas de emoção e felicidade que milhões de pessoas mundo afora já deixaram cair – e que só entende quem entende o que são os Beatles. A partir dali, só dependeria de nós garantir os ingressos, qualquer que fosse o seu preço. Deixaríamos de comer, pagar o aluguel e, em último caso, também de beber para comprá-lo.

Na madrugada do dia 27 para o dia 28 de outubro, seis horas antes do início da venda de ingressos, emocionei-me de novo a caminho do shopping que abrigava o ponto de vendas. O Sanchez tinha razão, Paul viria a Dublin. Ao concluir a Grafton Street e me deparar com as ruas vazias, a sensação de dever mais do que cumprido: o primeiro da fila – e, por pelo menos três horas e meia, o único. Patrick, o vendedor de jornais que solitária e religiosamente monta sua banca às cinco todos os dias em frente ao shopping, embora não tenha se conformado com meu adiantamento, teve companhia pela primeira vez.

Às nove horas e dois minutos da manhã, sete horas depois de eu ter acordado um pouco mais cedo do que o usual, os quatro ingressos são emitidos – para mim, Esteban, Ernani e Ju. Ainda que não houvesse mais incerteza alguma, viria então o momento mais difícil: a espera.
Desde o sanchesco 22 de outubro, passando pelo histórico 28, sinceramente não sei dizer quantas vezes me emocionei ao – tentar – imaginar o que este 20 de dezembro guarda a nós, que estaremos lá. Não sei dizer qual foi o momento em que não vivi dedicado apenas a esse dia. Na vã tentativa de reconstruir a história desde o começo, escrevo o artigo quando já é passada a meia-noite que divide o dia 19 do dia... do dia 20 de dezembro.
O dia que não chegaria nunca é hoje. O dia pelo qual meus colegas de moradia – à exceção de Esteban – e de trabalho esperam ansiosamente não porque gostam de Paul, mas para que eu pare de falar nisso. O dia que deixará triste o velho Patrick, uma vez que o faltarão motivos para me puxar, a caminho do trabalho, e dizer “Está chegando! Paul Mccartney, garoto brasileiro!”. O dia que dividirá minha vi(n)da em antes e depois.
Dormirei, enfim, sabendo que o sonho, dessa vez, só virá quando eu acordar.