quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Chave de ouro

Muito melhores que as palavras que ainda busco para descrever o show do último domingo, os registros de dois momentos distintos: a explosão ao piano e a suave balada ao violão; os extremos que definem o hibridismo da apresentação de Paul Mccartney em Dublin.

Live and Let Die

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Yesterday

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# Meu primeiro texto sobre o concerto de Paul foi publicado no blog 2012 - Por um fim do mundo consciente, de autoria do amigo Ernani - o embaixador do calendário maia no mundo moderno.

# Falando no companheiro, vale a pena ler o registro do próprio no épico Madruga em Claro.

# Alguma fração das quase duas centenas de fotos registradas já estão publicadas no orkut.

dublin ao vivo se despede de 2009 com a certeza de que poderia ter sido mais dinâmico; seu autor, contudo, não poderia ter colhido mais histórias pra contar. Que o ano que vem seja tão perfeito e repleto de coisas boas quanto uma performance do velho Paul.

domingo, 20 de dezembro de 2009

O dia que não chegaria nunca

Chegou do Brasil, no último 22 de outubro, o e-mail talvez mais importante que já recebi na vida:

CRESPO
IMPERDÍVEL
PAUL MCCARTNEY EM DUBLIN!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
20th December - Dublin, The O2


Simples assim. Quem (não) assina é Raphael Sanchez – e apenas um amigo dele sabe o que é ser “sanchesco”. Digo, não o vejo há mais de um ano e muito pouco nos falamos mesmo que por internet depois de minha partida. Durante as férias no Brasil, foi dos poucos companheiros que não encontrei. E ser “sanchesco”, por exemplo, é isso: ressurgir das cinzas, ignorar o sem-número de histórias e novidades que temos a dividir e sequer perguntar “Como está? Tudo bem? Quanto tempo!”. Ser “sanchesco” é ser conciso, discretamente enfático (poucas palavras, muitas exclamações e letras garrafais), objetivo e oportuno; é não perder mais do que poucos segundos para enviar uma mensagem eletrônica que, sabia ele, talvez fosse das mais importantes de minha vida – e sabia ele, sobretudo, que obviamente eu estaria muito bem depois da notícia dada.

Li o e-mail duas, três, quatro vezes. Cinco. Não acreditei. Ser “sanchesco” também é ser sarcástico e, convenhamos, Paul Mccartney em Dublin poderia ser fruto dalguma de suas construtivas piadas. O site oficial do artista não contrariava, porém, a mensagem do amigo. Seria “sanchesco” ter a perspicácia de invadir a página de meu maior ídolo vivo e forjar um concerto dele em minha cidade? Optei pela crença de que não seria “sanchesco” brincar com algo tão sério.

Dada a certeza de que o amigo tinha razão, rememorei conversa com a amiga Isabela no dia exato do meu aniversário, último 24 de junho: entre um mojito e outro, trocávamos figurinhas sobre o show de Elton John quando concluí que apenas um concerto poderia ser ainda maior para mim: o de Paul Mccartney. Isabela, por sua vez (Bartinha, para os próximos), concordou com a grandeza de Sir Elton e escolheu Michael Jackson como o único que poderia desbancá-lo do topo. Quando recebi a notícia da morte de Michael no dia seguinte, ainda no trabalho, tive certeza de que se tratava de uma piada com a amiga. Não era.

Distante do azar de Bartinha e contemplado com a mensagem de Sanchez, não hesitei em escrever ao amigo Esteban – argentino que divide apartamento e a paixão pelos Beatles. Ao receber, durante o trabalho, minha mensagem pedindo para que se preparasse para a melhor notícia de todos os tempos, Esteban esperou agoniado pelo intervalo para que pudesse me ligar e confirmar:

- O Radiohead está vindo a Dublin?!
- Esteban, meu amigo, preste atenção: é a MELHOR notícia de todos os tempos.
- Não, cara, não!
- Sim!
- Não... não...
- Eu juro, Esteban.
- P... P... Paul?

À confirmação daquele que é seu sonho também, Esteban dividiu comigo agora as lágrimas de emoção e felicidade que milhões de pessoas mundo afora já deixaram cair – e que só entende quem entende o que são os Beatles. A partir dali, só dependeria de nós garantir os ingressos, qualquer que fosse o seu preço. Deixaríamos de comer, pagar o aluguel e, em último caso, também de beber para comprá-lo.

Na madrugada do dia 27 para o dia 28 de outubro, seis horas antes do início da venda de ingressos, emocionei-me de novo a caminho do shopping que abrigava o ponto de vendas. O Sanchez tinha razão, Paul viria a Dublin. Ao concluir a Grafton Street e me deparar com as ruas vazias, a sensação de dever mais do que cumprido: o primeiro da fila – e, por pelo menos três horas e meia, o único. Patrick, o vendedor de jornais que solitária e religiosamente monta sua banca às cinco todos os dias em frente ao shopping, embora não tenha se conformado com meu adiantamento, teve companhia pela primeira vez.

Às nove horas e dois minutos da manhã, sete horas depois de eu ter acordado um pouco mais cedo do que o usual, os quatro ingressos são emitidos – para mim, Esteban, Ernani e Ju. Ainda que não houvesse mais incerteza alguma, viria então o momento mais difícil: a espera.

Desde o sanchesco 22 de outubro, passando pelo histórico 28, sinceramente não sei dizer quantas vezes me emocionei ao – tentar – imaginar o que este 20 de dezembro guarda a nós, que estaremos lá. Não sei dizer qual foi o momento em que não vivi dedicado apenas a esse dia. Na vã tentativa de reconstruir a história desde o começo, escrevo o artigo quando já é passada a meia-noite que divide o dia 19 do dia... do dia 20 de dezembro.

O dia que não chegaria nunca é hoje. O dia pelo qual meus colegas de moradia – à exceção de Esteban – e de trabalho esperam ansiosamente não porque gostam de Paul, mas para que eu pare de falar nisso. O dia que deixará triste o velho Patrick, uma vez que o faltarão motivos para me puxar, a caminho do trabalho, e dizer “Está chegando! Paul Mccartney, garoto brasileiro!”. O dia que dividirá minha vi(n)da em antes e depois.

Dormirei, enfim, sabendo que o sonho, dessa vez, só virá quando eu acordar.

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PS.: Do momento em que recebi a notícia à compra dos ingressos, a história foi muito bem contada pelas mãos do amigo Ernani [clique aqui]

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Uma vez Flamengo, sempre Corinthians

Uma das melhores temporadas de todos os tempos do futebol, definiu o amigo Ernani. Compactuo com ele, também corintiano dos bons, e tomo licença para o adendo de que, não fosse a mão de Henry, guardaríamos este ano como O melhor de nossas vidas no que diz respeito ao mundo da bola. Comemoramos, ainda que do além-mar, o Campeonato Paulista e a Copa do Brasil (com sabor de Libertadores no centenário). Choramos de alegria e descrença diante da – nova – redenção de Ronaldo, o maior jogador de nosso tempo, agora sob o manto alvinegro que vestimos desde criança. Tamanha era a satisfação que tanto fazia qual dos dois nossos maiores rivais alcançaria o triunfo no Brasileiro.

É pouco definir o penúltimo domingo, contudo, como simplesmente “atípico”. Flamengo e Corinthians. O primeiro brigando pelo título que durante todo o campeonato pareceu ser ora de um Palestra jogando de azul, ora de um São Paulo já acostumado a crescer na reta final e erguer a taça. Ora da “Era Belluzzo”, ora do Jason 7-3-3. O segundo, o nosso Corinthians, jogando para cumprir tabela – e, por que não, cumprir com o papel de time mais odiado por nossos rivais. Naquele domingo, fui Flamengo de todo o meu coração. Ernani também. O corintiano que não foi não o é. Dois a zero. Os amigos estrangeiros não entenderam nada. Os brasileiros, sobretudo os arredios torcedores de nossos rivais, provocaram: “Corintiano ou flamenguista, afinal?”.

Adjetivar o último domingo, por sua vez, também é tarefa difícil. Ainda que não tenhamos nos encontrado no pub australiano, tradicional reduto dos torcedores brasileiros (e onde celebramos o Paulistão de forma histórica), Ernani e eu, cada um de nossas casas, acompanhamos a rodada que decidiria o sucesso do “nosso” Mengão. Do Mengão que tinha a seu favor não apenas a maior torcida do Brasil, mas a maior do mundo. Sim, pois qual é aquela que faz frente à nação rubro-negra e à Fiel inteira juntas?

Ao apito final, aquele que sacramentou mais uma alegria nossa, a ligação imediata do companheiro:

- Foi lindo, parceiro!
- Salve Ronaldo Angelim!
- Eu queria que o São Paulo metesse quinze!
- Eu comemorei todos os quatro gols deles!
- Bebemos na terça pra comemorar?
- Uma Smithwicks e uma Guinness. A cerveja vermelha e a preta.
- Combinado!
- Foi lindo, parceiro!

Foi lindo. Ver o São Paulo perder – ou, diante dos inúteis quatro a zero, apenas deixar de erguer mais um troféu seguido. Ver o Palmeiras liderar por dezenove rodadas e sequer conquistar uma vaga para a Libertadores. Ver Adriano, a exemplo de Ronaldo, de volta. Ver um estrangeiro, provavelmente o melhor do campeonato, sair aplaudido por um côro que há dezessete anos não sabia o que é ser o melhor do país. Ver a única torcida que divide conosco o prazer de ser a maior comemorar um título do qual também temos nossa partezinha, afinal. Foi lindo ver o mais popular do Brasil conquistar o... Brasil. Foi lindo ser uma vez, só uma vez Flamengo, sabendo que o fui justamente por ser sempre Corinthians.

* Esta publicação é dedicada ao companheiro e flamenguista Bernardo Vergara, que só teve a alegria de comemorar o título pelo qual tanto esperava até o momento de receber a notícia, logo depois da partida, da fatalidade que vitimou um de seus melhores amigos no Brasil. Que a costumeira alegria rapidamente retorne ao seu espírito, pois o também flamenguista Leonardo Masiero decerto assistiu ao jogo da tribuna de honra que lhe cabia.